Felicidade é só questão de ser

Photo of a Prescription Bottle and Smily Faces

Era final de dezembro, aqueles dias pós-Natal, antes da virada pro novo ano, cheios de expectativas e retrospectivas. O ano de 2015 não foi fácil (arrisco-me a dizer que pra ninguém) e eu passei seus últimos dias no lugar que me traz acalanto com as pessoas que mais estimo nesta existência: a cidade onde nasci, na casa da minha família.

No quintal, enquanto via a roupa recém quarada secar no varal, conversava com minha avó e minha madrinha, de olho no meu afilhado que brincava de rodar pião com seus amiguinhos. Ali, perto daquelas pessoas que sempre ganham meus mais sinceros sorrisos, comecei a ouvir trovões, e minutos depois o céu desabou sobre nossas cabeças. “É chuva de verão”, disse minha avó, sem se movimentar, com seus noventa e tantos anos de experiência. “Já, já passa”, completou minha madrinha também imóvel. Na hora, corri pra sala, peguei o som, trouxe-o pra varanda e liguei o rádio. Dançamos todos na chuva. Dançamos como se ninguém nos observasse, como se aquela chuva fosse nossa despedida deste mundo… e naquele momento fui tão feliz que achei que meu peito explodiria de felicidade.

“Explodir de felicidade” é uma expressão cada vez menos usada. Será que caiu em desuso por falta de felicidade? Fiquei pensando nisso depois daquelas miniférias. Felicidade não tem a ver com quase nada que atribuem a ela. Não tem a ver com oba-oba, dinheiro na conta (embora isso ajude bastante), roupas de marca, carrão, diplomas, amor correspondido (ok, isso também ajuda muito) ou barriga negativa.

Felicidade genuína, pra mim, é a simplicidade da vida. Às vezes, estar triste faz parte desta felicidade genuína. Quantas vezes a tristeza foi a mola propulsora da coragem? E quantas vezes ter tido coragem para tomar uma decisão encheu seu peito de felicidade?

A todo momento somos “convidados” a dar fim à tristeza e aos problemas – a gravidade é tamanha que o Brasil já é o maior consumidor de Rivotril do mundo, e o número de adeptos não para de crescer – mas se eu visse a chuva naquele momento prosaico como um “problema” eu não teria quase explodido de felicidade.

Sim, é um exemplo simples, quase bobo, mas até que ponto contribuímos para que os pequenos problemas cresçam mais do que deveriam ao invés de celebrar uma ligação daquela amiga querida, as primeiras palavras lidas pelo seu filho, o primeiro bolo que não solou, o pôr do sol, a água gelada e revigorante da cachoeira, a comida fresquinha feita pela mãe, o abraço apertado e saudoso do irmão que não encontrava há semanas, a luz que entra pela fresta da janela ao amanhecer, o choro emocionado ao final de um filme. Por isso, reforço aqui o coro para os versos do Marcelo Jeneci: felicidade é só questão de ser, quando chover, deixa molhar.

A vida é boa, e nos blindar contra seus encantamentos é deixar a felicidade escapar. Não deixemos.

 

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Fabiane Pereira é jornalista, faz pós em Formação do Escritor na PUC-RIO, apresenta o Faro MPB na rádio MPB Fm, fez a curadoria do livro Som&Pausa e ainda toca vários outros projetos pela sua empresa, a Valentina Comunicação. Aqui no blog, é a representante da geração barra, essa turma de 30 e poucos anos que sabe assobiar e chupar cana como ninguém.

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