As preparadas

quadradinho

No funk carioca, as preparadas são aquelas mulheres prontas “pro que der e vier” e, durante o baile, a mulherada canta a pleno pulmões o refrão do Bonde do Tigrão. Mas será que somos, mesmo, uma geração de preparadas?

Conversando com amigas, sinto que (quase) todas estamos tateando no escuro para virar gente grande. Sim, do ponto de vista tecnológico e, digamos, de habilidades específicas, somos preparadas, afinal fazemos parte do topo de uma pirâmide cuja base ainda engatinha pra garantir direitos mínimos. Mas se olharmos por outro prisma, do ponto de vista humano, estamos completamente entregues e despreparadas, não sabendo lidar com as próprias frustrações.

Há uma geração de trinta e poucos anos, classe média que estudou em bons colégios, fala fluentemente outros idiomas, viajou bastante se beneficiando da estabilidade econômica e teve acesso completo e irrestrito à cultura e à tecnologia. Essa geração – da qual faço parte – teve muito mais oportunidades do que a de seus pais. Crescemos achando que todos os méritos eram oriundos da nossa genialidade, de que morávamos num país estável economicamente, e que essa bolha, quase alucinógena, “de que a vida é fácil, só depende de nós” era eterna.

Aí veio a primeira crise econômica (e política) do nosso país de terceiro mundo (isso não é complexo de vira-latas, é realidade pura) no período “adulto” de nossa existência, na fase em que toda receita que nos sustenta vem do próprio trabalho, e não tá fácil porque, entre muitas outras coisas, não nos foi ensinado a criar a partir da dor ou da escassez.

Não vou entrar aqui na problemática de que uma grande parcela dessa geração esperava encontrar no mercado de trabalho uma continuação dos mimos de suas casas, porque aí o buraco é (muito) mais embaixo. Mas as conquistas da vida vêm da construção, e para ter um espaço no mundo é preciso ralar muito com ética, honestidade, competência e, sim, apoiando a meritocracia – não estou, obviamente, falando para os herdeiros.

Meu pai dizia que de tudo que ele fosse incapaz de me ensinar a vida se encarregaria. E eu só compreendi a verdade absoluta contida nessa frase nos últimos três ou quatro anos. Frustração faz parte. Frustração precisa fazer parte da vida. Do contrário, temos uma geração dopada, incapaz de (con)viver com as angústias básicas que toda limitação humana provoca.

Muitos com quem converso (classe média enjoada com pinta de artista) acham que ralar é coisa de pobre. Desprezam o esforço. Preferem a vocação. O berço. O “nasceu pra isso”. Ninguém nasce pra isso ou praquilo. As pessoas tornam-se o que querem (obviamente, as mais preparadas). Do mesmo jeito que o esforço é desprezado por muitos, as frustrações também são. Há uma crença intrínseca a essa geração de que é possível viver sem sofrer (e dá-lhe Rivotril).

Estar preparada pro que der e vier é, antes de tudo, aceitar as limitações. Saber se reinventar. Compreender que o mundo de hoje é completamente diferente do mundo da nossa infância. Adaptar-se é preciso. Ninguém, por mais brilhante e rico que seja, consegue tudo o que deseja. E taí a graça da vida.

 

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Fabiane Pereira é jornalista, faz pós em Formação do Escritor na PUC-RIO, apresenta o Faro MPB na rádio MPB Fm, fez a curadoria do livro Som&Pausa e ainda toca vários outros projetos pela sua empresa, a Valentina Comunicação. Aqui no blog, é a representante da geração barra, essa turma de 30 e poucos anos que sabe assobiar e chupar cana como ninguém.

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