Bicos

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Não se fala em outra coisa. Seja no supermercado, na livraria, no metrô, em casa… tudo está pela hora da morte. A conta de luz aumentou, a cesta básica aumentou, as passagens dos transportes públicos aumentaram. Só ele não aumentou: meu salário.

Não estou aqui pra fazer uma radiografia da geração de trinta e poucos anos, mas verdade seja dita: é a primeira vez que, como adultos, passamos por uma crise econômica. E, se continuarmos morando no Brasil, acredito que não será a única.

No mundo todo, e mais especialmente no país do “se vira nos 30”, a mulher sempre acumulou muitas funções. Não tenho nenhuma intenção (nem conhecimento suficiente para isso) de analisar o desenvolvimento feminino no mercado de trabalho, mas, pelo que me recordo, minha avó já freelava pras contas mensais fecharem. Vamos combinar que o velho “bico” nada mais é que um job ou um freela vintage.

Sou de uma geração que se viu obrigada a se tornar um grupo de “biqueiros de luxo” para as contas caberem no orçamento. O próprio mercado de trabalho nos obrigou a entender um pouco de tudo, e muitas vezes os jobs extras vêm da empresa que assina a sua carteira. Nunca tive interesse por um trabalho convencional, e isso possibilitou algumas perspectivas profissionais, mas será que eu e meus amigos sobreviventes desse microcosmo-caro-zona-sul não estamos, há muito, fazendo bicos com uma roupagem artística?

Complicado chegar a uma conclusão com uma amostragem (Zona Sul artsy) tão pequena, mas essa “geração barra” que engloba os nascidos nos anos 1980 viu na internet um grande aliado pro upgrade do bico. A web facilita a articulação das pessoas e sua aproximação por interesses semelhantes. Não tenho conhecimento de ter havido uma ferramenta ao longo da história, de baixo custo, que tenha possibilitado tantas agregações e receitas.

Vivemos numa época em que se faz necessário abrir frentes pra ganhar dinheiro, não só porque a oferta de empregos caiu (no mundo todo) em relação ao número de pessoas que precisam ser empregadas, mas porque as empresas convencionais já não pagam salários tão bons. Além disso, a ideia de ter que fazer a mesma coisa pelo resto da vida – independentemente do prazer que ela proporciona – já caiu por terra, e muitos bicos tornaram-se fontes de renda consideráveis. Essa expansão do (auto) conhecimento – acredito que oriunda da era de Aquário – tem possibilitado ganhos de diversas fontes, até mesmo ao vender objetos pessoais, já que sustentabilidade é a palavra de ordem.

Muitas definições caracterizam a “geração barra” mas poucas são tão expressivas quanto: somos biqueiros de luxo, ou glamourizados, se preferirem.

 

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Fabiane Pereira é jornalista, faz pós em Formação do Escritor na PUC-RIO, apresenta o Faro MPB na rádio MPB Fm, fez a curadoria do livro Som&Pausa e ainda toca vários outros projetos pela sua empresa, a Valentina Comunicação. Aqui no blog, é a representante da geração barra, essa turma de 30 e poucos anos que sabe assobiar e chupar cana como ninguém.

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