carta à Violeta

Você me acorda chorando, me diz que tem fome. Te pego no colo, digo que vai ficar tudo bem, mamãe tá aqui. Te boto no peito, você mama esfomeada, dá suspiros de alívio e eu admiro suas bochechas, coradas de leite. Preciosa, minha filha, você é perfeita. Muitas vezes, tantas vezes, choro só de olhar para você, choro agora, lembrando de você. Você está aqui na sala ao lado, no colo do seu pai, e mesmo assim me emociono. Sua existência me dá esperança, me diz que Deus existe, que a ciência é foda (viva a peridural!), e que ser mulher ainda é difícil. Seu pai diz que machismo não existe, que somos todos iguais, e me lembro do filme que assisti, em que Jimmi Hendrix dizia que não acreditava em racismo. A diferença é que Jimmi era negro, e seu pai é um homem branco. Não o culpo por isso, acho bonito o modo de pensar de um aquariano com ascendente em aquário. Tantas vezes falo para você não se preocupar, eu tô aqui do seu lado. Quero ficar do seu lado para sempre e te proteger de Trumps and Crivellas, mas eu sei que a melhor proteção que posso te dar é a educação, a auto-confiança, e a liberdade. Se quiser fazer umas aulas de karatê também apoio, pois acabo de ler uma matéria horrível que postaram no Facebook, são tantas.

Você está há um mês e meio em minha vida, mas nos conhecemos de outras. Seus olhos gigantes deixam os curiosos ainda mais curiosos sobre a cor deles. Zoadeira que és, as vezes os mostra azuis como os do seu pai, e todos torcem para que fiquem assim, da cor do privilégio e da nobreza, um azul royal que abre portas neste país tão desigual. Mas às vezes os mostra negros como os meus, jabuticaba, dizem os fofos. Acabo de saber que houve um terremoto e tsunami no paraíso. A Nova Zelândia já foi minha casa por anos, foi a colonização mais pacífica da história, e o primeiro país a legalizar o voto para mulheres. Um país evoluído, acredito, e em terra de nórdicos, que tem olho preto é rei. Te levarei lá um dia, independente da cor dos seus olhos, prometo. Te levarei para onde o vento soprar, onde a maré levar, aonde quer que eu vá. Sou para sempre sua; sua fã, sua amiga, sua mãe. Te amo.

 

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Alice Galeffi precisou de várias cidades e alguns cursos para descobrir sua paixão por design gráfico e por livros. Entre um curso interrompido de Letras, uma mudança para a Nova Zelândia e um bacharelado em História da Arte e Comunicação, ela hoje vive no Rio e comanda a editora Guarda-Chuva. No blog da GC ela escreve sobre… bem, sobre o que quiser, afinal a casa é dela.
 
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