Encontro de assombrar na catedral

Um dia merda. Um encontro de “assombrar a catedral”. Entre um corredor e outro você vê o fantasma com uma garrafa de vinho na mão. Você supõe que é para um jantar com outra mulher, e o que te mata na verdade não é a possibilidade da presença dela, mas o fato dele estar subestimando a sua inteligência ao dizer que não. Você conhece todos os truques, os passos de dança e até as manchas do edredom (algumas delas foram feitas por você), e naquele momento em que ele para na sua frente com o vinho, você começa a lembrar que: você manchava as toalhas brancas dele com sua maquiagem (ela faz isso?), molhava o chão do banheiro e redecorava a sala com partes das suas roupas. Às vezes chorava quando gozava, mas era mais por #gratidão do que por ele ser o homem da sua vida. Ele nunca entendeu o conceito. Mas você se divertia com ele. Colocava uns discos para tocar e dançava na sala, aparecia de paetê no aniversário de cinco anos do filho do sócio, dava uma garrafa de gin para a avó no natal, fumava maconha e ficava com tesão durante a tarde, mandava fotos, e declarações, e fazia planos, porque você é assim, um monte de coisas disfarçada em um coração rosa-calcinha romântico. Ele fala alguma coisa e você volta do transe. Ele comenta que vocês têm que marcar alguma coisa, “qualquer dia”. Você olha o vinho na mão dele, um vinho ruim. Cata os caquinhos daquele passado, cola de novo no peito, indica uma massa ruim para harmonizar, volta pra casa e acorda no dia seguinte morrendo de fome de vida. Que é como você é. Um belo rosa-calcinha que não ornou com o bege da vida dele.

 

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Paula Gicovate nasceu em Campos dos Goytacazes, em 1985, e mora no Rio de Janeiro desde 2004. Cursou Letras – Formação de Escritor na PUC-RIO. Publicou dois livros de contos – “Sobre (o) tudo que transborda” e “D4” (Multifoco, 2009) – e em 2014 lançou seu primeiro romance, “Este é um livro sobre amor”, pela Guarda-Chuva. Atualmente escreve roteiros, livros e cartas de amor. Ela assina uma coluna mensal no blog da GC.

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