Uma rainha ferida

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Cores vibrantes, penteados trançados com fitas coloridas, maquiagem forte, bigode suave, sobrancelhas contínuas. É assim a lembrança de Frida Kahlo no imaginário coletivo, nas representações na mídia, nos blocos de carnaval, nas notas de 500 pesos mexicanos. Uma imagem tão forte, que gruda na cabeça até de quem não conhece sua arte, sua história. Mas o que há por trás da mulher obcecada por autorretratos, corças feridas, corpos esquartejados, colunas vertebrais metálicas e pernas amputadas?

Não parece ter algo de terrível na vida da pintora surrealista?

Escondido no rosto meio asteca, meio folclórico, há uma mulher que passou por 35 cirurgias numa vida de apenas 47 anos: ela teve poliomielite quando criança e uma de suas pernas não se desenvolveu direito. Na adolescência, sofreu um acidente de trânsito e um tubo de ferro atravessou seu estômago e útero. Os médicos acreditaram que ela nunca mais andaria. O único dano permanente causado pelo acidente foi sua incapacidade de gerar vida. Mas a dor extrema e as frequentes visitas ao hospital passaram a fazer parte de seu processo criativo.

Por conta das fraturas na coluna, a artista precisou usar espartilhos de gesso e, ressignificando sua vestimenta como antídoto para as dores, começou a vestir-se com saias floridas e a misturar roupas das culturas pré-hispânicas e indígenas do México até transformar-se em rainha tehuana, numa época em que era costume vestir-se de acordo com as tradições européias. Seu guarda roupa, uma forma de expressão para criar a própria identidade.

Frida Kahlo sempre fez as coisas à sua maneira. Conheceu Diogo Rivera quando tinha 15 anos e ele pintava num andaime com Guadalupe, sua então mulher. Ela pediu para observá-lo, ele consentiu e ela passou as próximas 3 horas absorta em sua técnica, calada até dizer “boa noite” e ir embora. Aos 18, pediu-lhe uma opinião sincera sobre a arte que estava fazendo e ele se impressionou com a força da sua pintura. Quando ela tinha 22 e ele 42, estavam casados: um casamento aberto muito antes do termo existir. O primeiro caso de Rivera aconteceu antes que a união completasse um ano. Frida, por sua vez, teve relacionamentos extraconjugais tanto com homens quanto com mulheres. O mais famoso deles foi com o líder comunista exilado Leon Trotski.

O caso com Trotski veio muito depois de Frida flertar com o comunismo: numa declaração, a pintora ufanista, nascida em 6 de julho de 1907, insistiu em usar o dia 7 de julho de 1910, marco do princípio da Revolução Mexicana, como data de nascimento, para que sua vida começasse junto com a do México moderno.

Este ano, Frida dá as caras numa exposição na Caixa Cultural até o dia 27 de março sobre artistas surrealistas mexicanas. Entre as obras de Frida presentes na mostra, uma coleção de autorretratos e imagens de bebês em forma de boneco ou com o rosto de Rivera, a imortalização do bebê que ela não pôde ter. Sua vida nos leva à sua arte ou sua arte nos leva à sua vida? No fim das contas, é tudo uma coisa só, porque Frida é extensão.

 

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Luiza Mussnich é jornalista e escritora, com um livro de contos sendo preparado. No blog da GC contribui com colunas sobre viagens, arte, entretenimento e tudo que faz a vida ter movimento. Publica contos, poemas, pequenos dramas e comédias cotidianas no blog www.palavrasemvoolivre.wordpress.com  

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