Why, yes, Wyoming!

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Tem certeza de que você vai para o Wyoming?, foi a pergunta do guarda da imigração em Houston. Dos cinquenta estados americanos, Wyoming é o décimo maior e, apesar disso, o menos populoso do país. Por que não vai a Nova York, Miami, esses lugares que brasileiro gosta de ir, vai fazer o que naquele fim de mundo? Ah, é mesmo, com esse dólar não dá mais pra fazer muamba, deve ter pensado.

Realmente: em Wyoming as paisagens são remotas e os animais são tão abundantes quanto os locais. Mas nunca vi céu tão povoado de estrelas, galáxias, sonhos. A terra ali crua, tocada pelo homem com a pontinha dos dedos.

Se você me perguntasse se já ouvi falar de alguém que tenha nascido nesse estado, eu responderia Zé Colmeia e Catatau, os ursos do desenho animado: é que a grande atração de Wyoming é o Parque Nacional de Yellowstone, com seus géiseres e ursos e lobos e alces.

A outra jóia da coroa do estado de maior renda per capta da América é a cidade de Jackson Hole, região onde já viveram índios americanos e até fazendeiros mórmons. Lar de aproximadamente nove mil pessoas, entre elas vaqueiros ou celebridades como Harrison Ford, Jackson Hole é autenticamente Western — botas de caubói, peles de animais, casacos de franja, chapéus e bigodes fartos são usados com a maior naturalidade pela cidade, cuja praça central abriga quatro portais enormes feitos de chifres de cervos encontrados pelo chão.

Mas fora amantes da natureza, fazendeiros e americanos em busca de uma vida mais pacata ou aventureiros e esportistas no verão, Jackson Hole também atrai um outro nicho quando está coberta de neve: esquiadores, praticantes de snowboard e demais modalidades invernais se arriscam nas montanhas da cordilheira Teton, em Teton Village (sim, os exploradores franceses acharam as montanhas muito parecidas com seios de mulher e as batizaram de tétons), que fica a  vinte minutos de ônibus da cidade.

Benny Wilson, ex-integrante da Marinha Americana, não passa despercebido: cartola, echarpe e colar tribal fazem parte da indumentária do esquiador veterano e um dos fundadores da Jackson Hole Air Force, que não tem nada a ver com “Força Aérea”. Foi um movimento idealizado por ávidos esquiadores para que fossem ampliadas as regiões esquiáveis da montanha nos anos 1980, que culminou com a abertura das áreas limítrofes no fim do anos 1990. Isso quer dizer que qualquer esquiador que deseje ir além das áreas controladas pode proceder por conta própria em busca de neve virgem em meio à desconhecida imensidão branca, sua fauna e seus perigos, como a avalanche. Era uma honra receber os broches da JHAF customizados por Benny: significava que você se enquadrava na categoria de excelente esquiador.

Do rústico ao luxuoso, com lojas e restaurantes surgindo, a cidade é um segredo mal guardado: se desenvolve mais a cada ano na medida em que os escassos visitantes revelam detalhes desse retiro em Parque Nacional, como vos faço neste relato.

Gostaria de encontrar o mesmo guarda da imigração na volta para impedi-lo de cometer outra vez o erro de desdenhar desse lugar tão incrível. Talvez ele não goste de natureza ou tenha medo das lendas dos índios.

 

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Luiza Mussnich é jornalista e escritora, com um livro de contos sendo preparado. No blog da GC contribui com colunas sobre viagens, arte, entretenimento e tudo que faz a vida ter movimento. Publica contos, poemas, pequenos dramas e comédias cotidianas no blog www.palavrasemvoolivre.wordpress.com  

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